Exactamente às 16h09 (20h09 em Lisboa), os adeptos comemoraram o histórico golo de Diego Armando Maradona contra a Inglaterra, nos quartos de final do Mundial do México, há exactamente 35 anos, e poucos meses depois da morte do ex-futebolista.

“Com Diego, seria uma linda homenagem. Sem ele, foi mais emocionante porque se misturaram os sentimentos de homenagem, de alegria e de saudade. São sentimentos contraditórios e profundos. Não contive as lágrimas”, descreve emocionado à Lusa o adepto Maximiliano Ruíz, de 36 anos, quem tem 11 tatuagens, incluindo uma da jogada do golo.

O segundo golo daquela partida é considerado pelos argentinos como “o golo do século” e um dos mais bonitos da história de todos os Mundiais de futebol, em que Maradona pegou a bola antes do meio-campo, passou por vários jogadores ingleses, antes de ultrapassar o guarda-redes Peter Shilton e rematar para a baliza.

“Cada vez que eu vejo esse golo, eu emociono-me e muitas vezes choro. Conheço cada detalhe da jogada e da narração, mas hoje foi ainda mais forte porque gritámos e pulámos todos juntos como se o golo tivesse acontecido pela primeira vez”, detalha Maxi, que tinha menos de dois anos de idade quando a Argentina derrotou a Inglaterra em 22 de Junho de 1986.

A homenagem foi impulsionada pela Associação de Futebol Argentina (AFA), que incentivou os adeptos a descarregarem o áudio da narração do encontro para reproduzi-lo exactamente às 16:09 de forma coordenada em todo o país.

As estações de rádio e os canais de TV reproduziram o golo e os canais de desporto transmitiram o jogo inteiro, mas com uma nova narração como se fosse uma partida inédita, com o golo a coincidir com o mesmo horário de há 35 anos.

Pelo país, em casa, nas praças e até em estádios, os argentinos comemoraram a jogada como se o país estivesse naqueles quartos de final e como se Maradona não tivesse falecido em 25 de Novembro, aos 60 anos de idade.

Os uníssonos gritos de golo foram também uma homenagem que pretendeu ser ouvida pelo próprio Maradona esteja onde estiver, embora os adeptos olhassem para o céu.

“Em 1986, eu tinha apenas cinco anos. Esta foi uma espécie de reedição na qual eu pude gritar o golo, sentindo mais de perto como foi. Aliás, eu senti como se fosse agora. Fiquei muito emocionado. Abracei todos ao meu redor”, relata à Lusa Pablo Lezcano, de 39 anos.

“Eu sinto muita saudade dele. Choro todos os dias pela sua ausência”, acrescenta Pablo, reunido com centenas de outros adeptos no município de La Matanza, a 30 quilómetros do centro de Buenos Aires, onde foi construído um mural de homenagem ao ídolo.

Fogo de artifício, faixas e bandeiras compuseram o cenário de uma improvisada bancada como em 1986.

“Ele escuta tudo. Agora, sim, temos um Deus no céu. Olho para céu e sei que lá está ele. Para mim, o único Deus é Diego. Podem dizer que estou louco, mas é o que sinto”, confessa Pablo.

O golo contra os ingleses tem ainda uma conotação especial para os argentinos, derrotados na Guerra das Malvinas de 1982, na qual a Argentina tentou recuperar o arquipélago ocupado pelos ingleses em 1833. Por isso, aquele jogo contra a Inglaterra precisava ser vencido de qualquer forma, e Diego Maradona cumpriu.

Primeiro, com um golo com a mão que ficou conhecido como ‘A mão de Deus’ e depois com o golo magistral, num triunfo por 2-1.

“A nossa sensação era a de que se jogava outra guerra”, sintetizou o próprio Maradona anos depois.

“Diego andava em campo e nos dizia: ‘vamos lá que esses mataram um vizinho nosso, mataram algum parente’. Assim ele nos incentivava a jogar mais do que uma partida”, contou o então defesa central Oscar Ruggeri.

“No contexto do pós-guerra, era preciso ganhar de qualquer jeito. A ferida continuava aberta. O primeiro golo foi de qualquer jeito, o segundo do melhor jeito”, referiu o adepto Maxi Ruiz.

O segundo golo foi uma obra de arte futebolística: Maradona percorreu 60 metros em 16 segundos, partindo do próprio campo, fintando cinco rivais, incluindo o próprio guarda-redes inglês Peter Shilton, ainda enfurecido com o primeiro golo, marcado com a mão, apenas quatro minutos antes.

Em 2002, a FIFA organizou uma votação para eleger o melhor golo da história dos Mundiais. A jogada de Diego Maradona foi a eleita, ajudando na construção do mito que, para os argentinos, está cada dia mais vivo.